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Romário Martins foi o principal historiador paranaense que procurou fundamentar os argumentos históricos pró-Paraná, na “Questão do Contestado” com Santa Catarina. Esse mapa expressa esse objetivo e evidencia os argumentos históricos paranaenses. Visualiza o conteúdo das Cartas e Avisos Régios de 1765 a 1809, que colocavam como limite meridional da Capitania de São Paulo os rios Pelotas e Uruguai.

No século XVIII e início do XIX, a fronteira corria pelo rio Preto afluente do Negro; em 1865, pelo rio Marombas; e em 1879, pelo rio do Peixe.

Concomitantemente, a persistente penetração catarinense fazia deslocar as divisas entre as partes envolvidas. Os territórios anexados por Santa Catarina, Romário Martins considera “zona invalida” e a reivindicação, denomina de “pretendidas”.

Em 1911, o Paraná já havia perdido no Judiciário, para Santa Catarina, “todo o território contestado”. Para não entregá-lo à administração catarinense, passou a estimular a criação do “Estado das Missões” na região e a dificultar a execução da sentença. A “Guerra do Contestado” (1912-1915) ainda estava para ocorrer.

O ano de 1912 é importante na História do Paraná. Inicia-se a “Guerra do Contestado” entre os caboclos denominados pejorativamente de “fanáticos” e as forças militares da sociedade organizada.

O mapa destaca a importância da ferrovia São Paulo - Rio Grande, concluída pelos norte-americanos da “Brazil Railway Company”, passando ao sul de União da Vitória, em pleno território contestado. A valorização das terras provocadas pela sua construção no vale do rio do Peixe foi um dos motivos do conflito armado iniciado em 1912.

Até 1916, os interesses geopolíticos do Paraná concentravam-se no Contestado. Mas uma outra região começa a destacar-se: o Norte Pioneiro. Novas forças vivas e fecundas começam a despontar em seu território, iniciando a produção de café em larga escala. Nota-se que o vizinho Estado de São Paulo já fez encostar os trilhos da Sorocabana no Norte Pioneiro, sendo que a construção do ramal Jaguariaíva - Jacarezinho ainda está no projeto e seria concluído somente em 1930. São Paulo queria atrair para o seu território toda a produção do Norte do Paraná. É o denominado “perigo paulista”.

Em 1912 a grande via de transportes é a São Paulo - Rio Grande, ligando o extremo Sul com São Paulo, cortando o Paraná de norte a sul. Constata-se que até esse ano não havia ocorrido nenhuma penetração de vulto em direção ao fecundo oeste.

Este poderia ser considerado o mapa das utopias. O sucesso que as novas estradas de ferro estavam proporcionando em São Paulo e no resto do Brasil, levou o Governo Federal e os dos Estados a sonharem com a multiplicação das ferrovias no extenso território brasileiro. Não dispondo de verbas para construí-las, apelaram para concessões de ramais fantásticos a particulares, esperando desta forma um verdadeiro milagre, isto é, a sua efetiva concretização.

Surgem então no Paraná várias concessões visando à realização de quiméricos projetos, que estão representadas no mapa:

a) Guaratuba a Barracão, ligando o litoral com a Argentina;

b) Rio Negro a Foz do Iguaçu, passando por Guarapuava;

c) Ponta Grossa a Guairá, pelo vale do Piquiri;

d) Guarapuava e Mato Grosso, pelo divisor Piquiri-Ivaí;

e) Antonina e Mato Grosso, via Serro Azul e Castro;

f) Ponta Grossa ao Paranapanema, com um ramal nas margens do Tibagi e outro pelo Laranjinha;

g) Jacarezinho às Sete Quedas, ramal concedido à Sorocabana pelo Governo Federal.

Em 1924, o historiador Romário Martins visitou o Norte Pioneiro. Tomando conhecimento da realidade econômica e humana da região, conclui que o maior problema do Paraná era a integração do seu território. Esclarecia que antes andava pleiteando e sonhando com ferrovias transparanaenses, que ligassem o mar oceano ao mar fluvial. Eram futurismos poéticos e generosos.

Neste mapa de Romário Martins, de 1919, já aparece o Paraná com seus limites meridionais definidos pelo acordo de 1916. Mesmo propondo um “Mappa do Estado do Paraná”, o atavismo paranaense ao território do Contestado levou o autor a representar integralmente o território catarinense.

Trata-se de um dos mais bem cuidados mapas produzidos até então, de bela apresentação e com muitos detalhes. Além do perfil do relevo paranaense, da planta das baías de Paranaguá e Antonina, o destaque inédito dos “Grandes Saltos do Yguassú” é muito esclarecedor, tendo certamente causado bons efeitos à época para melhor se entender a localização das cataratas.

No processo de ocupação do território paranaense, quatro frentes de ocupação e colonização chamam a atenção nessa época:

1. A frente “nortista”, oriunda de Minas Gerais e São Paulo, representada sobretudo por Jacarezinho e Ribeirão Claro.

2. A penetração para oeste em direção a Foz do Iguaçu, partindo de Guarapuava. Já aparecem os núcleos de Mallet (Laranjeiras do Sul), Formigas e Catanduvas.

3. A frente de Palmas e Clevelândia em direção à fronteira Argentina, já aparecendo o núcleo de Pato Branco.

4. As “obrages” argentinas com mãos-de-obra paraguaia e os “mensus”, na margem esquerda do rio Paraná.

Essa frente é estrangeira e penetra à procura de erva-mate.

Entre Guairá e Porto Mendes está construída uma pequena estrada de ferro, sistema Decauville, executada pela empresa Mate Laranjeira a fim de facilitar a exportação da erva-mate matogrossense para o mercado argentino. Essa ferrovia foi construída para contornar o Salto das Sete Quedas.

Trata-se do mesmo mapa de Romário Martins de 1919, em terceira edição corrigida. Finalmente o Paraná liberta-se do fardo histórico do Contestado: Santa Catarina não está mais representada.

No Norte Pioneiro, a localidade de Almabary transforma-se em Cambará com o surgimento das primeiras"‘plantations” de café, de propriedade de capitalistas paulistas. Estes cafeicultores projetaram um ramal ferroviário que, partindo de um ponto da Sorocabana (Ourinhos), fosse ter até a ex-colônia militar do Jataí (Estrada de Ferro São Paulo-Paraná), devendo preferencialmente chegar até a fronteira com o Paraguai. No mapa, o trecho ferroviário entre Ourinhos e Jataí já aparece projetado. O primeiro trecho, de 23 quilômetros, foi inaugurado em 1924.

Na época da abertura desse trecho ferroviário, o Estado começa a sentir os efeitos da economia cafeeira, pois desde 1920 é crescente o aumento da produção paranaense. Nos anos de 1921-1922, o café representava 3,8% das exportações paranaenses e em 1926-1927 já atingia 9,3%.

Da comparação da edição do mapa de 1919 para o de 1921, constata-se uma aceleração ocupacional na região de Prudentópolis, bem como a oeste da cidade de Tibagi.

Observa-se que o ramal ferroviário Jaguariaíva - Jacarezinho ainda está parado em Colônia Mineira (atual Siqueira Campos).

Evidenciando um crescimento demográfico extraordinário, a população do Paraná atingira 685.711 habitantes, conforme o censo de 1920.